No começo, eu ainda tentava explicar.

— É minha terceira graduação.

A frase parecia suficiente para justificar os cabelos brancos, a diferença de idade, algumas referências que ninguém entendia e o fato de eu já ter vivido uma vida inteira antes de entrar numa sala de aula de Medicina.

Com o tempo, parei de explicar.

Na faculdade de Medicina, idade é uma informação que chega antes de você.

Às vezes pela pergunta.

— Professor?

— Não… eu sou aluno — respondo, fingindo não haver uma dose de constrangimento mútuo.

Uma jovem colega pergunta com um sorriso:

— Você estuda aqui?

E há também aquele segundo de silêncio, quase imperceptível, quando alguém descobre que você não é pai de aluno, preceptor, médico visitante nem funcionário administrativo.

É aluno mesmo.

No meu caso, a situação é ainda um pouco mais confusa. Antes da Medicina, houve Engenharia, serviço público, Cinema, Polícia Federal, casamentos, filhos, um tiro na cabeça, UTI, reabilitação, aposentadoria e algumas outras coisas que normalmente caberiam melhor numa biografia do que numa ficha de matrícula.

Quando entrei no curso, meus colegas estavam, em sua maioria, começando a vida adulta.

Eu estava começando outra.

Isso faz diferença.

Conviver com pessoas vinte ou trinta anos mais jovens tem suas dificuldades. O repertório muda. As urgências também.

Algumas conversas acontecem numa velocidade que eu não acompanho. Certas gírias chegam e desaparecem antes que eu descubra exatamente o que significavam. Há músicas que nunca ouvi, influenciadores que desconheço e acontecimentos considerados históricos que, para mim, aconteceram anteontem.

Eu lembro das Torres Gêmeas caindo na televisão e de como as coisas mudaram depois daquilo.

Em 2001, muitos dos meus colegas de faculdade ainda usavam fraldas.

Eu já estava na minha primeira graduação.

Às vezes percebo que conto uma história e preciso acrescentar contexto.

— Naquela época não tinha WhatsApp.

O olhar que recebo costuma ser semelhante ao que eu fazia quando meu avô falava de rádio de válvula.

Meus filhos não sabem o que é um disquete.

Meus colegas de curso não usaram internet discada.

Há também uma diferença menos divertida.

O etarismo raramente entra pela porta dizendo seu nome.

Ele aparece em pequenas suposições.

Na ideia de que será mais difícil aprender.

Na surpresa quando você acompanha o ritmo.

Na pergunta sobre quanto tempo ainda pretende trabalhar depois de formado.

Ou naquela conta silenciosa que algumas pessoas parecem fazer quando descobrem sua idade.

Formatura. Residência. Especialização.

Subtraem tudo da expectativa de vida e olham para você como se estivessem analisando a viabilidade econômica de um investimento.

Eu também já fiz essa conta.

A Medicina, aliás, tem uma relação curiosa com o tempo.

É um curso em que todos parecem estar atrasados.

Aos vinte e poucos anos, alguém sofre porque ainda não publicou um artigo.

Outro está preocupado porque não entrou numa liga.

Outro acredita que perder seis meses trancando o curso ou pegando uma DP representa uma catástrofe biográfica.

Eu observo aquilo com alguma ternura.

Não porque seja mais sábio.

Apenas porque já perdi anos.

E descobri que eles continuam passando mesmo assim.

Talvez essa seja uma das vantagens de estudar Medicina mais velho.

A experiência não torna ninguém automaticamente melhor.

Idade não é sinônimo de maturidade, assim como juventude não é sinônimo de imaturidade.

Mas viver algumas coisas muda a escala dos problemas.

Uma nota ruim continua sendo ruim.

Uma prova continua assustando.

Um plantão cansativo continua cansativo.

Mas nem tudo parece definitivo.

Depois de certa idade — ou de certos acontecimentos — você aprende que muita coisa que parecia o fim do mundo era apenas uma terça-feira difícil.

Isso ajuda.

Também ajuda diante dos pacientes.

Não porque eu saiba mais Medicina do que meus colegas mais jovens. Muitas vezes acontece exatamente o contrário. Eles decoram mais rápido, recuperam informações com uma agilidade que invejo e conseguem atravessar uma madrugada estudando sem precisar negociar com a coluna no dia seguinte.

Mas algumas histórias dos pacientes me são familiares.

Eu sei como uma família se reorganiza quando alguém adoece.

Sei que uma profissão pode desaparecer de uma hora para outra.

Sei o que significa depender de alguém para tarefas que antes pareciam banais.

Sei que um diagnóstico nunca chega sozinho.

Ele entra numa casa, senta-se à mesa, mexe no casamento, no trabalho, no dinheiro e nos planos que estavam guardados para o ano seguinte.

Isso não se aprende em atlas.

Também não garante empatia.

Mas oferece matéria-prima.

Talvez por isso algumas conversas com pacientes me pareçam menos estrangeiras.

Há outra vantagem inesperada: aos quarenta e tantos anos, impressionar os outros já perde um pouco da importância.

Não completamente.

Seria mentira.

Mas perde.

Você começa a perceber que não precisa vencer todas as discussões, participar de todas as disputas ou provar o tempo inteiro que merece estar ali.

Essa última parte demora mais.

Porque ser o aluno mais velho também significa, às vezes, sentir que precisa justificar a própria presença.

— Por que você resolveu fazer Medicina depois de velho?

Como se houvesse uma idade correta para começar Medicina.

Como se a vida tivesse uma sequência obrigatória:

vestibular, faculdade, residência, casamento, filhos, carreira.

Qualquer alteração no roteiro provoca estranhamento.

Eu alterei quase todas.

Hoje, durante o internato, essa diferença de idade ficou menos visível.

Vestimos todos o mesmo jaleco.

Ficamos igualmente perdidos diante de algumas prescrições.

Esperamos juntos o preceptor.

Comemos quando dá.

Dormimos quando é possível.

E descobrimos, aos poucos, que o hospital tem uma capacidade extraordinária de relativizar diferenças que pareciam enormes fora dele.

Diante de um recém-nascido de oitocentos gramas, pouco importa quem nasceu em 1979 e quem nasceu depois de 2000.

Todos olham para o monitor do mesmo jeito.

Talvez eu tenha começado Medicina tarde.

Essa é uma possibilidade.

A outra é que eu tenha começado exatamente quando pude.

Há perguntas que a idade não responde.

Só muda a maneira de fazê-las.

Luís Márcio Pires Alvarenga

Luís Márcio, 47 anos, é escritor e estudante do 5º ano de Medicina.

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