
— E você? Vai fazer o quê?
A pergunta aparece com tanta frequência na faculdade de Medicina que a gente aprende a responder quase sem pensar.
Cirurgia. Pediatria. Cardiologia. Psiquiatria.
É curioso. Passamos seis anos tentando aprender a ser médicos e, antes mesmo de terminar, já esperam que saibamos exatamente que tipo de médico seremos.
Durante muito tempo, eu dizia que ainda não tinha decidido.
Depois passei a responder:
— Psiquiatria.
Funcionava muito bem.
Ninguém estranhava. Ninguém fazia aquela pequena pausa antes de continuar a conversa. Ninguém precisava olhar discretamente para meu braço esquerdo, afetado por uma hemiparesia desde que levei um tiro na cabeça, e tentar calcular mentalmente quais especialidades médicas caberiam naquele corpo.
Psiquiatria parecia fazer sentido.
E talvez faça.
O problema é que, em determinado momento, percebi que não sabia mais se a resposta era uma escolha ou uma defesa.
Ela tinha se tornado uma espécie de escudo.
Ao dizer “Psiquiatria”, eu poupava os outros de perguntar e me poupava de responder. Não precisava explicar se conseguiria suturar, fazer procedimentos, segurar determinados instrumentos ou acompanhar uma cirurgia durante horas. Não precisava provar nada.
Era uma resposta confortável.
Confortável demais.
Foi então que comecei a desconfiar das escolhas que fazemos para evitar perguntas.
Na Medicina, quase nunca alguém precisa dizer diretamente a um estudante com deficiência:
— Você não pode fazer isso.
Existem formas mais delicadas.
“Talvez seja muito pesado para você.”
“Você já pensou numa área mais tranquila?”
“Essa especialidade combina mais com o seu perfil.”
Às vezes é cuidado. Às vezes é preconceito. E, muitas vezes, provavelmente é um pouco dos dois.
O resultado pode ser curioso: ninguém fecha uma porta. Apenas nos acostumamos a não tentar abri-la.
Não quero romantizar minha deficiência. Existem coisas que faço com dificuldade. Outras talvez eu não consiga fazer. Medicina exige habilidades concretas e seria infantil fingir que todos os corpos respondem da mesma maneira.
Mas há uma diferença enorme entre descobrir um limite e receber um limite pronto.
Hoje, quando me perguntam que especialidade pretendo seguir, tenho menos certeza do que antes.
E considero isso um avanço.
Talvez eu escolha Psiquiatria. Talvez Medicina de Família. Talvez descubra outra coisa durante o caminho.
Só quero ter certeza de uma coisa:
que, quando escolher, seja eu quem esteja escolhendo.
Porque há uma diferença enorme entre encontrar o próprio caminho e passar anos acreditando que todos os outros estavam fechados.
Luís Márcio Alvarenga
Escritor, agente de Polícia Federal aposentado e estudante do 5º ano de Medicina
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