
Há uma coisa que venho aprendendo durante o internato de Medicina: cada visita constrói um pouco do médico que pretendo ser. Nem sempre pelos diagnósticos que consigo formular, pelas condutas que discuto com os preceptores ou pelas respostas que encontro nos livros. Às vezes, o aprendizado acontece justamente quando a Medicina parece ficar em segundo plano.
Nesta semana, durante uma visita, um paciente me fez uma pergunta aparentemente simples. Com os olhos marejados e a voz trêmula, queria saber se poderia contar comigo a qualquer instante.
Respondi que sim.
Não era exatamente verdade. Sou apenas um interno, tenho horários, responsabilidades delimitadas e não posso tomar decisões sem supervisão. Minha presença naquele hospital é transitória. Talvez, no dia seguinte, nem fosse eu quem abriria a porta daquele quarto.
Mas compreendi a pergunta antes mesmo de pensar na resposta.
Ele não queria saber sobre escalas, atribuições ou hierarquias médicas. Queria saber se havia alguém com quem pudesse contar. Alguém que se importasse. A internação tem uma solidão que não desaparece necessariamente com a presença de outros pacientes, enfermeiros ou médicos. É uma solidão feita de espera.
Conheço bem essa espera.
Durante minhas próprias internações, passei dias observando a porta do quarto. Esperava que ela se abrisse e trouxesse alguma novidade. Uma informação sobre meu estado de saúde, uma perspectiva de alta, uma conversa que interrompesse a monotonia. Às vezes, esperava apenas que alguém entrasse e me perguntasse como eu estava.
Hoje, sou eu quem atravessa aquela porta.
Um interno quarentão, com deficiência física, carregando minhas limitações, minhas dúvidas e um estetoscópio que ainda não me confere toda a segurança que gostaria de ter. Talvez não seja exatamente a imagem que alguém espera encontrar quando imagina um futuro médico. Mas, naquele breve instante, percebi que minha chegada poderia ser a melhor notícia do dia para alguém.
A anamnese não foi das melhores. Deixei perguntas por fazer, perdi a oportunidade de aprofundar aspectos importantes da história clínica e provavelmente teria recebido algumas correções se meu preceptor tivesse acompanhado toda a conversa.
Ainda assim, saí daquele quarto com a sensação de ter aprendido alguma coisa que dificilmente encontraria nos livros.
Não quero romantizar minhas experiências como paciente. Houve dor, medo, frustração e dias em que a esperança parecia tão distante quanto o mundo do lado de fora do hospital. Não acredito que alguém precise sofrer para aprender a cuidar. Mas seria impossível ignorar que aquelas experiências modificaram profundamente a maneira como hoje enxergo quem está deitado em uma cama hospitalar.
Quando me aproximo de um leito, não vejo apenas um caso clínico. Vejo alguém que deixou sua casa, interrompeu sua rotina, afastou-se das pessoas que ama e entregou parte do controle da própria vida a desconhecidos vestidos de branco. Alguém que talvez esteja contando as horas até a próxima visita, como eu tantas vezes fiz.
Talvez minha resposta tenha sido precipitada. Não posso estar disponível a qualquer instante. Sei disso. Mas compreendo agora que, naquela pergunta, havia muito mais do que um pedido de assistência. Havia o medo de ser esquecido.
E, de alguma maneira, a pergunta daquele paciente também me alcançou. Em meio às inseguranças de quem ainda aprende a exercer a Medicina, ele me fez perceber que minha presença já podia ter algum valor. Não porque eu tivesse todas as respostas, mas porque, por alguns minutos, pude oferecer aquilo que tantas vezes procurei: alguém disposto a ouvir.
Talvez tenha sido essa a verdadeira troca. Ele precisava de alguém que estivesse ali. Eu precisava compreender que, apesar das minhas limitações e incertezas, já era capaz de cuidar.
Naquele dia, minha anamnese foi incompleta. Esqueci perguntas que deveria ter feito. Mas reconheci, do outro lado da cama, uma solidão que já havia sido minha.
Entrei naquele quarto como estudante de Medicina. Por alguns instantes, voltei a ser paciente.
Cada visita é uma troca.
Luís Márcio
31 de outubro de 2026






